Vitória heroína da aldeia

Relatório Anual do UNICEF Moçambique 2014

Pois, pois, foi uma boa surpresa aquela que fizeram os meus pais para celebrar os meus 12 anos, sinto-me forte, gosto da aldeia e sou muito boa na escola. Agora tenho meu programa na Rádio Comunitária e daqui a nada vou para Maputo com a minha amiga Aurora onde vamos participar de uma formação de Criança para Criança sobre rádio.

– Olá Vitória, posso te dizer uma coisa?

Vem de repente ao meu encontro a menina Rosita, uma rapariga de 14 anos de outra turma.

– Pois Rosita, diz.
– Vitória, todos da nossa turma achamos que podes nos ajudar. Não estamos contentes com o nosso novo professor. Ele chega sempre tarde, quase nunca fica na aula e quando está na sala está sempre a dormir. Quando dá aulas, diz muita coisa errada e às vezes até o João, que nunca foi bom nas aulas, o tem corrigido, mas ele nunca se importa. Apenas sorri e continua a dar as tarefas para em seguida sentar-se de novo e fechar os olhos.
– Xiii... a sério? Ele é novo?
– Sim, é novinho. Agora todos queremos mudar de professor.
– Xiii... não sei o que fazer agora, mas irei pensar em algo. Vamos falar amanhã.
– Desculpa, tu és a Vitória?

Ele olhou para os alunos muito sério e sentou-se à sua secretária, em cima da qual havia uma outra mensagem.

– Somos flores com sede dos seus conhecimentos não nos deixe secar.

E durante a parte da manha, cada vez que o professor saía ou adormecia, quando voltava ou acordava tinha uma nova mensagem. O professor foi se sentindo cada vez mais incomodado com a situação, o que o motivou a dar a primeira aula por completo.

No intervalo das aulas vi que o Zé estava na escola a olhar para mim. Então fui para onde ele estava e voltamos a conversar. Ele disse-me que estava desapontado por não ter o seu registo de nascimento e que sentia muita vergonha de dizer, que o seu pai lhes tinha abandonado.

– Acontece que ainda sou pequeno e não sei muitas coisas. Não sabia que o registo de nascimento era tão importante.
– Bom Zé, o professor Zacarias disse que todos, crianças e adultos, temos que ter o registo de nascimento.
– Xiii... Eu acreditava que as mães tiravam os filhos da barriga com um papel assinado por pai Deus e era ele quem punha os nomes de cada pessoa nesse papel. Comentou o Zé.

Sorri, era boa ideia. Mas tentei explicar-lhe que o mais provável era que os seus pais se tenham esquecido de fazer o registo.

– Pois... o meu pai não nos registou porque estava sempre a viajar. É por isso que eu acho que o pai Deus poderia enviar os bebés com o papel do registo. A sério Vitória, só assim nenhum pai esqueceria a documentação dos seus filhos, e como pai Deus é muito inteligente daria os nomes mais bonitos a todas as crianças.

O Zé e eu ficamos a rir. Então perguntei-lhe se já tinham tentado fazer o registo.

– Fomos para a Administração do Distrito, mas o senhor que estava no balcão disse a minha mãe que o meu pai devia acompanhá-la. Ela explicou-lhe a situação do meu pai, mas o senhor não quis saber de nada, só que tínhamos que resolver o problema antes de fazer o registo. O senhor disse que se o meu pai “fugiu”, devíamos fazer a denúncia. A minha mãe explicou que não tínhamos dinheiro e que precisávamos do registo para eu não perder o ano escolar. Mas o senhor respondeu que não era seu problema. Vitória, achas que é possível estudar sem registo?

Eu fiquei um momento em silêncio mas o Zé fez uma outra pergunta:

– Vitória, o que significa exactamente a palavra “fugir”?

Voltei para a minha aula e contei ao professor Zacarias sobre a minha conversa com Zé.

– Conheces a menina Júlia não é? Sabes quem é ela?
– Perguntou-me ele.– Sim, a menina da Rádio das Crianças.
– Pois, ela ontem esteve a falar no seu programa de um projecto do Governo, com apoio do UNICEF, que facilita o registo das pessoas que têm este tipo de problema.
– Xiii... a sério? Vamos entrar em contacto com eles?
– Feliciano o APE, virá com uma equipa móvel às 14h, e a menina Júlia da Rádio de Maputo também estará com eles para fazer a cobertura da notícia. Avisa o Zé e a sua mãe para estarem cá na escola a essa hora.

Fiquei muito contente, finalmente iria conhecer a minha heroína que me inspirou a colaborar com a rádio comunitária na escola, mas o mais importante era que resolveríamos o problema do Zé. Antes das 14h, o Zé e a sua mãe chegaram e foi uma grande surpresa para eles encontrarem na sala de aula, o Feliciano, o Diretor da Escola, o professor Zacarias e o pessoal que iria fazer o registo. Lá também estava a menina Júlia numa cadeira de rodas. Não tinha imaginado ela assim e a minha admiração por ela aumentou mais ainda, pois mesmo com a distância e a coma sua deficiência tornou-se uma pessoa importante para as nossas aldeias. Ela explicou-me que não recebeu vacinas quando era bebé, acabando por apanhar uma infecção, que lhe deixou sem movimento nas pernas.

Eu estava muito emocionada e até chorei de alegria quando eles entregaram o documento ao Zé e a sua mãe. Desde aquele dia passei a gostar ainda mais do meu trabalho na Rádio Comunitária e o meu desejo é ser como a menina Júlia.

Quando saíamos da aula a caminho da porta principal da escola, vimos a Rosita e os seus colegas que iam atrás do novo professor. Reduzimos os passos porque enquanto o novo professor saia, os alunos enviavam-lhe mais mensagens através de aviões de papel para o motivar a mudar o seu comportamento.

Nesse momento, o professor Zacarias perguntou à mãe do Zé, se sabia onde estava o seu marido, ela não respondeu. Aproximou-se do Zé e perguntou-lhe o que achava do seu pai. O Zé pensou um momento e respondeu:

– Eu gosto do meu pai. Sei que onde ele estiver, continuo a ser importante para ele.

Nesse momento a mãe do Zé não aguentou e começou a chorar, ele foi para onde ela estava e começou a fazer-lhe cócegas e a dizer-lhe:

- Não chores mãe...já temos o registo, agora posso ir à escola.

Despedimo-nos deles e ficamos a olhar para o Zé e a sua mãe a caminharem felizes, cruzando os aviões de papel que algumas crianças continuavam a fazer voar com as suas mensagens coloridas.

“A escola somos todos, aprender é um direito universal”

RESULTADOS: Educação com o apoio do UNICEF

Foi desenvolvida uma proposta de 57,9 milhões de USD para a Parceria Global para a Educação. Alavancada a priorização da qualidade e aprendizagem, (Plano de Educação Primária 2015-18).

Capacitação de 6 mil professores em 7 distritos por meio das “Escolas Amigas da Criança” e dos Institutos de Formação de Professores a nível nacional.

600 escolas primárias implementaram as normas e directrizes sobre a qualidade de educação e partilharam lições aprendidas para o lançamento a nível nacional das normas, a sua monitoria e supervisão.

22 Institutos de Formação de Professores em 11 províncias, integram questões transversais sobre a saúde escolar, prevenção do HIV/SIDA, habilidades para a vida, género, prevenção de abusos, e a prática do desporto.

O UNICEF apoiou a inclusão no currículo de Planos de Prontidão em Emergências para as escolas.

RESULTADOS: Protecção da Criança com o apoio do UNICEF

Em 2014, foram registadas 319.871 crianças durante as Semanas Nacionais de Saúde, estimando-se que 60% de todas as crianças menores de 5 anos tenham sido registadas.

O Plano Operacional de Registo Civil e Estatísticas Vitais foi elaborado pelo Governo, com o apoio do UNICEF e parceiros.

O apoio técnico e financeiro do UNICEF contribuiu para o aumento do compromisso do Governo e demais parceiros para com a protecção social sensível à criança e a revisão da Estratégia de Segurança Social.

Aprovado pelo Governo, o manual de Gestão de Casos e a formação de 1.400 Comités Comunitários nas províncias da Zambézia, Inhambane e Gaza, que poderão agora identificar casos de protecção que envolvem 141 mil crianças vulneráveis e que, requerem uma intervenção. Estão sendo documentadas evidências sobre o papel e a função destes comités, que contaram com o apoio do UNICEF.

Por decisão do tribunal, foram integradas 2 mil crianças em famílias de acolhimento, com o apoio técnico e financeiro do UNICEF.

Campanha Nacional contra o Casamento Prematuro lançada pelo Primeiro Ministro, com a contribuição de parceiros de desenvolvimento, incluindo UNICEF, por meio da advocacia, assistência técnica e financeira.


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