A flor que se abre à vida

Relatório Anual do UNICEF Moçambique 2014

Era uma vez, uma jovem mulher chamada Josefina que morava com o seu marido numa aldeia perto de um rio, e que tinha uma machamba de verduras. A mulher era forte e muito dinâmica, mas o marido tinha atitudes egoístas e não a deixava sair de casa. Mas um dia, a jovem Josefina começou a sentir-se diferente e uma semana depois percebeu que estava grávida. Uma tarde, esperou que o seu marido voltasse da machamba e quando chegou, ela disse:

- Tenho uma surpresa...
- Ai é…? Com que coisas me vais agora incomodar?
- Parabéns… tu vais ser pai.
- O quê? Estás maluca? Não estamos preparados para ter filhos, não!
- Mas já estou grávida, tenho de ir para um Centro de Saúde.
- Xiii... não confio nesses centros e não estou certo se quero ter filhos agora.

Relatório Anual do UNICEF Moçambique 2014A jovem Josefina ficou triste e preocupada pela saúde do seu bebé. Passaram uns dias e ela escreveu uma carta e às escondidas deu à uma vizinha que ia para a aldeia onde morava a sua irmã Sofia, que é parteira tradicional. Quando a tia Sofia recebeu a mensagem ficou muito preocupada e preparou-se para ir ao campo ter com a sua irmã.

A aldeia ficava a umas horas a pé e a tia Sofia estava cada vez mais preocupada. O seu instinto familiar dizia-lhe que algo estava a acontecer, e não estava enganada. A Josefina estava doente, ela achava que as dores de cabeça e os vómitos eram sintomas da sua gravidez, mas teve sorte porque a tia Sofia chegou quando ela acabava de ter uma ameaça de aborto. O seu marido tinha ficado assustado e saiu à procura de ajuda, mas passado meio-dia, ainda não tinha voltado.

A tia Sofia tinha vindo acompanhada pelo seu filho mais velho. Os dois carregaram a jovem mulher e levaram-na até ao Centro de Saúde que ficava no distrito a muitas horas da aldeia. Era um longo caminho mas conseguiram ajuda de um motorista que encontraram na estrada e que lhes deu boleia. Quando lá chegaram, a Josefina recebeu cuidados rapidamente. Fizeram-lhe exames e testes, diagnosticando malária, tendo sido tratada com urgência. Por causa da malária, ela estava anémica, razão pela qual recebeu dicas para melhorar a sua alimentação. Ela ficou internada no Centro de Saúde durante três dias, até que os médicos tivessem a certeza de que o seu bebé ficaria bem e que não nasceria com problemas de baixo peso. A tia Sofia, que tinha ficado com ela o tempo todo, respirou fundo e abraçou a sua irmã. Os médicos deram-lhe alta e juntas foram para a aldeia onde nasceram, lá estava a Vovó Elisa a sua espera. A Vovó Elisa ficou feliz por receber a filha grávida e comprometeu-se em cuidar dela e do bebé que estava por chegar.

Mas o marido da Josefina veio buscá-la e quando chegou à casa da Vovó Elisa, ela com a sua paciência e sabedoria autorizou-lhe a visitar a sua filha duas vezes por semana. Nos dias em que o marido vinha de visita, a Vovó Elisa aproveitava para contar-lhe sempre a mesma história.

“ Um homem estava numa aldeia muito zangado com o seu filho, o homem estava a procura de um castigo para ele quando nessa altura passou um sábio e perguntou-lhe.
- O que estás a sentir agora mesmo no teu coração?
- Estou a sentir que tenho duas hienas brigando no meu coração. Uma está zangada e chateada mas a outra está cheia de amor e perdão, qual achas que vai ganhar a briga?
O sábio respondeu: Aquela que você alimentar.”

Relatório Anual do UNICEF Moçambique 2014Passaram-se meses e o marido da mulher foi mudando o seu pensamento. Josefina dormia debaixo da rede mosquiteira, que era um escudo de vida, para ela e para sua criança em gestação; alimentava-se muito bem e nunca se esqueceu das datas para o controlo da sua gravidez, durante o qual recebeu tratamento preventivo para a malária e vacinas que a converteram numa fortaleza difícil de ultrapassar para qualquer doença. Na “Casa mãe espera” do Centro de Saúde as enfermeiras e médicos gozavam com ela e falavam do “super” bebé que iria ter pois estava bem nutrida.

A tia Sofia gostava de vir com ela para aprender coisas do seu ofício como parteira tradicional. Quando o dia do nascimento chegou, o marido estava lá na “Casa mãe espera”, e naquele lugar que é limpo e seguro, nasceu uma menina linda, forte, saudável, com as mãos pequeninas e gordinhas. O seu primeiro choro foi forte, era uma apresentação da vida e esperança. O pai não acreditava na sua felicidade, ficou tão emocionado que não aguentou e começou a chorar.

Relatório Anual do UNICEF Moçambique 2014A tia Sofia ajudou no parto como assistente tradicional de parto e foi ela quem entregou a bebé à sua mãe. A jovem mulher esticou os braços para carregar a sua pequenina e abraçou-a com toda a ternura e o infinito amor que só uma mãe pode dar. A pequena ao sentir o calor do corpo da sua mãe mexeu-se procurando o seu conforto e logo, por instinto, dirigiu a sua pequena cabeça para o peito esquerdo da sua mãe e sentiu os batuques do seu coração. Só então a pequena acalmou a sua fome monumental com o líquido amarelado e transparente que saía do milagroso peito daquela jovem mulher. O rosto da menina iluminou-se com aquele alimento que é uma bênção dos deuses e que nós chamamos de “colostro”, o primeiro sumo da vida, cheio de magia nutricional.

Relatório Anual do UNICEF Moçambique 2014A bebé recebeu as vacinas que precisava nos seus primeiros dias e foi registada para garantir o seu direito à educação, saúde e protecção social. Os pais chamaram a menina de Vitória, que sou eu. A minha mãe disse-me que era muito consciente de tudo o que acontecia ao redor de mim. Ela também me contou que como todos os bebés, podia comunicar-me com os meus choros e caretas felizes ou tristes, as duas sempre funcionavam com todos. Os meus pais ficaram juntos e fomos morar na aldeia, eles estavam sempre perto, cuidando de mim durante os primeiros seis meses de vida, a minha mãe alimentou-me exclusivamente com o leite do seu peito. Ela diz que brigava com o meu pai porque ele queria dar-me mandioca, mas a mandioca não é nada nutritiva. Eles sempre foram juntos para o meu controlo de crescimento e nunca esqueceram nenhuma das vacinas que precisava.

A aldeia foi crescendo e agora somos uma comunidade maior, tenho meus amigos e há pouco tempo abriu uma escola, vou começar a estudar e acho que vou gostar de aprender novas coisas. No fim-de-semana anterior ao início das aulas fomos visitar a Vovó Elisa. Nessa tarde ela contou-me aquilo que sempre dizia ao meu pai quando acabava de contar a sua história.

Pai não é quem dá a vida, isso é muito fácil, pai é aquele que é capaz de dar amor.

RESULTADOS: Sobrevivência Infantil com o apoio do UNICEF

Com o apoio técnico do UNICEF verificou-se uma expansão do número de Agentes Polivalentes de Saúde (APEs) de 2.225 em 2013 para 2.747 no final de 2014, e o reforço das suas capacidades para lidar com a saúde neonatal e infantil, e outras questões nutricionais no seio da comunidade. Os dados de 2014 indicam que foram atendidas ao domicílio, por APEs, cerca de 2,4 milhões de pessoas das quais cerca de 1 milhão eram crianças menores de 5 anos, e cerca de 817 mil pessoas beneficiaram do tratamento para malária, diarreia e pneumonia.

Em 2014, o UNICEF apoiou tecnicamente e financeiramente a organização de duas Semanas Nacionais de Saúde (SNS), que beneficiaram mais de 4 milhões de crianças menores de cinco anos em cada uma das rondas, o que assegurou um aumento a nível nacional da cobertura da provisão da Vitamina A, desparasitantes e de vacinação, bem como do número de crianças registadas. Estas duas SNS constituíram também uma oportunidade para reforçar a cobertura de novos utilizadores do Planeamento Familiar.

A contribuição do UNICEF para as intervenções relacionadas com o acesso universal do controlo da malária em 2014 foi feita através da distribuição de redes mosquiteiras tratadas com insecticidas de longa duração nas províncias da Zambézia e Gaza. Esta contribuição beneficiou quase 1.600.000 pessoas, das quais 268 mil crianças. O UNICEF apoiou ainda as províncias de Tete e Zambézia na compra e distribuição de medicamentos para pelo menos duas doses de Tratamento Intermitente Preventivo (TIP) da malária para mulheres grávidas. Isto representa 51 % (Tete) e 57% (Zambézia) da cobertura Sobrevivência Infantilcom o apoio do UNICEF das mulheres grávidas com pelo menos duas doses do TIP, contra 44% a nível nacional.

Em 2014 o UNICEF apoiou os programas de vacinação tecnicamente, financeiramente e com frigoríficos, contribuindo para que 97% de crianças menores de um ano fossem vacinadas com três doses da vacina pentavalente. Foram ainda vacinadas contra o sarampo 91 % de crianças com menos de um ano.

O UNICEF apoiou o Ministério da Saúde (MISAU) na actualização do Plano da Cadeia de Frio para atender às necessidades e capacidades para a introdução, em 2015, de três novas vacinas (Rotavirus, IPV, e segunda dose de sarampo). Este apoio incluiu a aquisição de 75% dos equipamentos necessários para a cadeia de frio.


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